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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Gasolina

Vamos começar com uma pequena entrada no meu mundo. Mais um dia de trabalho para um entregador no meio da noite, o silêncio nas ruas. Somente ele e os seus dois pacotes... ou não?
A porta está aberta agora e você pode entrar. Se tiver coragem...




GASOLINA



Enquanto espero a primeira remessa chegar, fico aqui sentado na minha van olhando para uma foto da minha esposa que eu tenho guardado na carteira e lembrando-me de como sonhávamos de sair dessa. De sair desse submundo.
– O que foi que aconteceu com a gente? – sussurro pra foto como se fosse responder. Igual quando fazemos com um cachorro.
Meu parceiro está lá fora comprando alguma coisa pra comer nessas lojas de conveniência 24 horas num posto de gasolina qualquer.
Ele entra no carro com as coisas e apressado como nunca.
– Vamos logo! Olha tá aí a porcaria de lanche que você me pediu e a sua cerveja. Não temos tempo de você ficar namorando uma foto! Vamos! Tá quase na hora!
Merda! Não era pra ele ter visto a foto! Nada demais. Só não gosto de expor as coisas assim! Giro a chave ligo o rádio e seguimos caminho. Passando por uma esquina ou outra vazia e escura vemos o nosso pacote.
– Seja rápido! – digo pro meu parceiro.
Ele concorda com aquele ar superior dizendo “E você tem duvida disso?”. Era o nosso trabalho e fazíamos bem! E dessa vez estamos até que um tanto empolgados. Vou seguindo-o com o veículo lentamente e há alguns metros de distancia por segurança, caso precisemos improvisar.
Vejo o encontro dos dois e acelero até eles. Como prometido! Antes de parar completamente o carro, o primeiro pacote já estava sedado com um capuz preto dentro da van. Eu queria ter certeza de que era o cara certo. Mas meu colega de trabalho mandou acelerar e não ficar bobeando.
– Agora o segundo pacote da noite! – eu disse empolgado – Você tem certeza de que é ele, certo?
– Não sou nenhum mongol! É claro que é ele! Reconheceria pelo cheiro se fosse cego!
Ás vezes eu não vejo muito sentido nas coisas que ele fala, então eu jogo meus ombros, dou um gole na cerveja e continuo dirigindo.
Mais uma parada! Esse, já temos a rotina de cor! Então eu fico mais relaxado e pego mais uma vez a foto dela e fico olhando. Lembro quando discutimos, e eu dizendo que não tinha outra opção. Se quiséssemos sair da merda eu teria de aceitar esse emprego de entregador. “A grana é boa”, dizia pra ela, “Nós vamos sair de tudo isso. Vai ver!” eu sussurrava abraçando forte aquele corpo magro que chorava e soluçava dizendo que é um trabalho muito perigoso para alguém tão bom como eu, que se me pegassem ela não saberia o que fazer sem mim. Mas eu tinha de arriscar, não tinha? Ela depois de um tempo acabou me perdoando disso.
Agora, agora é somente mais um dia de trabalho.
– Hei! Babaca no mundo da Lua! O segundo pacote acabou de passar na nossa frente. Vai logo com essa lata velha.
Ainda bem que estávamos bem estacionados. Num beco escuro, com uma van preta, ficamos imperceptíveis!
Giro a chave mais uma vez e vou me aproximando aos pouquinhos, até me decidir quando eu vou querer ser notado. Acelero mais um pouco, mas ainda lento. Acompanhando os passos.
– Vá pra trás e se prepare! – digo pro meu colega. Engraçado, justo no segundo pacote começa a tocar “I drove all night” do Roy Orbison na rádio. Às vezes eu gosto do sarcasmo do destino.
Aproximo-me um pouco mais e logo escuto a porta de trás sendo aberta, um grito feminino sendo abafado por um capuz preto e o estalo de um soco forte pra desmaiar o segundo pacote.
– Pronto! – eu olho para o retrovisor e concordo com a cabeça.
Minha querida no que me transformei?

Fim Da Parte 1 de 3

Espero tê-los tocado um pouco e puxado para o Universo de Terror 5. 
Costumarei postar os contos por partes. Cada dia da semana será um diferente.

e assim por diante...

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